A Reforma na Inglaterra

No século XVI, em quase toda a Europa continental, os reis tornaram-se as únicas autoridades em seus países. Esse sistema político ficou conhecido como Absolutismo de Direito Divino, pois os reis consideravam-se governantes por designação de Deus. Na Inglaterra, desde a Idade Média, a autoridade nominal do país era o Parlamento, embora, na prática, os Tudor fossem reis absolutistas, pois o Parlamento era dócil a seus desejos e aprovava todas as ordens reais. A burguesia e a nova nobreza inglesa (que vivia das atividades capitalistas) dominavam o Parlamento e apoiavam o poder real, uma vez que aumentaram suas fortunas com aplicações de capitais no comércio e nas manufaturas, em grande desenvolvimento na Inglaterra. Assim, interessava-lhes que as riquezas obtidas pela Igreja, no país, permanecessem na própria Inglaterra, em vez de serem mandadas para Roma, pois eram necessárias ao desenvolvimento comercial e manufatureiro.

O Estado inglês sempre exerceu grande influência sobre a Igreja. Nomeava os ocupantes dos altos cargos na hierarquia, doava dinheiro, bens e terras. Seus domínios territoriais eram grandes e despertavam a cobiça da nobreza. O rei Henrique VIII tinha recebido da Igreja o título de defensor da fé, ao condenar os ensinamentos de Lutero. Portanto, no plano estritamente religioso, nada havia que justificasse um rompimento entre a Inglaterra e a Igreja Romana. Essa ruptura deu-se devido aos interesses políticos e econômicos divergentes entre o papado e as classes dominantes inglesas.

No século XVI, o papado aliou-se à Espanha, considerada inimiga pela maioria dos ingleses.

A Espanha era o principal e maior império colonial da época, pois possuía terras na Europa, na América e no Oriente. Na Inglaterra, os setores ligados ao comércio, interessados em arrebatar parte desse império colonial, rico em especiarias e metais preciosos, pressionavam o Estado absolutista. Mas a Inglaterra, através do casamento de Henrique VIII com uma princesa espanhola, Catarina de Aragão, tornou-se aliada da Espanha. Para promover a corrida comercial e colonial contra a Espanha, a Inglaterra teria de romper a aliança, o que implicava romper também o casamento de seu rei. Catarina de Aragão, por sua vez, não tinha filhos que pe1petuassem a Dinastia dos Tudor no poder inglês.

Diante disso, Henrique VIII, que era amante de uma dama da corte, Ana Bobina, solicitou o divórcio ao papa. Em condições normais, o papa não se recusaria. A Espanha, porém, era o principal país católico e sustentava o papado. Para não ofender o rei espanhol, o papa não concedeu o divórcio, o que fez Henrique VIII romper suas relações com Roma. Em 1531, o rei fez-se proclamar pelo Parlamento protetor da Igreja inglesa, o que significava que as rendas da Igreja iria para o tesouro real. Três anos depois, o Parlamento votou o Primeiro Ato de Supremacia, pelo qual o rei da Inglaterra se tornava chefe da Igreja inglesa.

Henrique VIII passou a nomear os bispos. Os mosteiros foram suprimidos e suas terras passaram para a Coroa, que as vendeu aos nobres e burgueses da Inglaterra. Todos os compradores desses bens foram obrigados a romper com Roma. Surgiu assim a Igreja Anglicana, que, doutrinária e hierarquicamente, não diferia da Igreja Romana, a não ser pelo fato de que seu chefe era o rei da Inglaterra. Inclusive não aceitava o divórcio, que foi o pretexto para o rompimento entre elas. Quando Henrique VIII morreu, em 1547, seu sucessor, Eduardo VI, tinha apenas 9 anos, e dois regentes governaram sucessivamente.

Nesse período, os bens dos bispos anglicanos foram nacionalizados e a Igreja Anglicana aproximou-se da doutrina calvinista. Após a morte de Eduardo VI, sua meia-irmã, Maria Tudor, subiu ao poder. Ela mantivera-se católica e fez com que o Parlamento votasse o retomo da Igreja Anglicana ao seio da Igreja Romana. O ajuste de seu casamento com seu primo Felipe II, rei da Espanha, o mais reacionário soberano católico, perseguidor de hereges, judeus, protestantes, muçulmanos e outros dissidentes, tomou seu governo impopular. Os beneficiários do anglicanismo temiam perder suas propriedades para a Igreja. A maioria da população enxergava o catolicismo como a religião do inimigo, isto é, da Espanha. As diversas seitas e religiões protestantes da Inglaterra receavam que as perseguições, julgamentos e condenações em massa, feitos pela Inquisição espanhola, fossem introduzidos no país por Felipe II. Ocorreram algumas sublevações, que foram severamente reprimidas pelo governo.

Foi Elizabeth 1, sucessora de Maria Tudor, quem consolidou o anglicanismo, ao fazer o Parlamento votar o Segundo Ato de Supremacia, pelo qual o rei voltava a ser o chefe da Igreja Anglicana. Embora mantendo a mesma estrutura hierárquica do catolicismo e um culto de aparência católica, no piano doutrinário o anglicanismo aproximou-se mais do protestantismo, conservando dois sacramentos batismo e eucaristia e a salvação pela fé.

O anglicanismo, religião oficial da Inglaterra, tentou conciliar os princípios religiosos protestantes e católicos, principal-mente a partir do reinado de Elizabeth 1. Não houve uma ruptura total com o catolicismo, e sim com a autoridade papal, e a Igreja passou a subordinar-se ao Estado.

A Reforma Anglicana favoreceu a grande nobreza e a burguesia comercial monopolista, sendo esses dois grupos os integrantes da hierarquia eclesiástica anglicana e os sustentáculos do Estado absolutista. Entretanto, os setores economicamente mais importantes da população inglesa  a burguesia manufatureira, o campesinato e os artesãos sofreram influências do calvinismo em suas diversas seitas, que foram combatidas pelo anglicanismo e pelo absolutismo. Na Escócia, país vizinho da Inglaterra ao norte, John Knob, diretamente inspirado no calvinismo, fundou a Igreja Nacional da Escócia. A Reforma, nesse país, foi mais democrática, pois contou com uma participação maior da população e rompeu definitivamente com os princípios da Igreja Católica em 1560.

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