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Trovadorismo – Contexto Histórico e Características

Trovadorismo surgiu no final da Idade Média, na Península Ibérica e foi caracterizado pelas Cantigas, como as Cantigas de Amigo, de Escárnio e Maldizer, no âmbito da poesia, e pela Prosa Medieval, dentro do período que englobou a produção literária de Portugal durante seus primeiros séculos de existência (séc. XII ao XV).

O marco inicial do Trovadorismo data da primeira cantiga feita por Paio Soares de Taveirós, provavelmente em 1198, intitulada Cantiga da Ribeirinha.

Características do Trovadorismo

A poesia desta época era composta basicamente de cantigas, geralmente com acompanhamento de instrumentos (alaúde, flauta, viola, gaita etc.). Quem escrevia e cantava essas poesias musicadas eram os jograis e os trovadores. Estes últimos deram origem ao nome deste estilo de época português.

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Mais tarde, as cantigas foram compiladas em Cancioneiros. Os mais importantes Cancioneiros desta época são o da Ajuda, o da Biblioteca Nacional e o da Vaticana. As cantigas eram cantadas no idioma galego-português e dividiam-se em dois tipos: líricas (de amor e de amigo) e satíricas (de escárnio e mal-dizer).

Do Ponto de vista literário, as cantigas líricas apresentavam maior potencial, pois formavam a base da poesia lírica portuguesa e até brasileira. Já as cantigas satíricas tratavam, geralmente, de personalidades da época, numa linguagem popular e muitas vezes obscena.

Cantigas de Amor

Tiveram origem da Provença, região da França, trazidas através dos eventos religiosos e contatos entre as cortes. Tratavam, geralmente, de um relacionamento amoroso, em que o trovador cantava seu amor a uma dama, normalmente de posição social superior, inatingível. Refletindo a relação social de servidão, o trovador rogava a dama que aceitasse sua dedicação e submissão. O Eu-lírico era masculino.

“Senhora minha, desde que vos vi,
lutei para ocultar esta paixão
que me tomou inteiro o coração;
mas não o posso mais e decidi
que saibam todos o meu grande amor,
a tristeza que tenho, a imensa dor
que sofro desde o dia em que vos vi.

Quando souberem que por vós sofri
Tamanha pena, pesa-me, senhora,
que diga alguém, vendo-me triste agora,
que por vossa crueza padeci,
Eu, que sempre vos quis mais que ninguém,
e nunca me quiseste fazer bem,
nem ao menos saber o que eu sofri.

E quando eu vir, senhora, que o pesar
que me causais me vai levar à morte,
direi, chorando minha triste sorte:
“Senhor, porque me vão assim matar?”
E, vendo-me tão triste e sem prazer,
todos, senhora, irão compreender
que só de vós me vem este pesar.

Já que assim é, eu venho-vos rogar
que queirais pelo menos consentir
que passe a minha vida a vos servir,
e que possa dizer em meu cantar
que esta mulher, que em seu poder me tem,
sois vós, senhora minha, vós, meu bem;
graça maior não ousarei rogar.”

Afonso Fernandes

Cantigas de Amigo

Neste tipo de texto, quem falava era a mulher e não o homem. O trovador era quem compunha a cantiga, mas o ponto de vista era feminino, mostrando o outro lado do relacionamento amoroso – o sofrimento da mulher à espera do namorado (chamado “amigo”), a dor do amor não correspondido, as saudades, os ciúmes, as confissões da mulher a suas amigas, etc. Os elementos da natureza estavam sempre presentes, além de pessoas do ambiente familiar, evidenciando o caráter popular da cantiga de amigo. Eu-lírico – feminino.

“Enquanto Deus me der vida,
viverei triste e coitada,
porque se foi meu amigo,
e disso fui a culpada,
pois que me zanguei com ele
quando daqui se partia:
por Deus, se agira voltasse,
muito alegre eu ficaria.

E sei que andei muito mal
em zangar-me como fiz,
porque ele não o merecia
e se foi muito infeliz,
pois que me zanguei com ele
quando daqui se partia:
por Deus, se agira voltasse,
muito alegre eu ficaria.

Certamente ele supõe
que comigo está perdido,
do contrário, voltaria,
porém, sente-se ofendido,
pois que me zanguei com ele
quando daqui se partia:
por Deus, se agira voltasse,
muito alegre eu ficaria.”

Juan Lopes

Cantigas Satíricas

Através das cantigas satíricas (cantigas de escárnio e maldizer) os trovadores preocupavam-se em denunciar os falsos valores morais vigentes, atingindo todas as classes sociais: senhores feudais, clérigos, povo e até eles próprios.

Cantigas de Escárnio

  • Crítica indireta e irônica:

“Conheceis uma donzela
por quem trovei e a que um dia
chamei de Dona Berinjela?
nunca tamanha porfia
vi nem mais disparatada.
Agora que está casada
chamam-lhe Dona Maria.

Algo me traz enjoado,
assim o céu me defenda:
um que está a bom recato
(negra morte o surpreenda
e o Demônio cedo o tome!)
quis chamá-la pelo nome
e chamou-lhe Dona Ousenda.

Pois que se tem por formosa
quanto mais achar-se pode,
pela Virgem gloriosa!
um homem que cheira a bode
e cedo morra na forca
quando lhe cerrava a boca
chamou-lhe Dona Gondrode.”

Dom Afonso Sanches.

Cantigas de Maldizer

  • Crítica direta e mais grosseira:

“Ai dona fea! Foste-vos queixar
Que vos nunca louv’en meu trobar
Mais ora quero fazer un cantar
En que vos loarei toda via;
E vedes como vos quero loar:
Dona fea, velha e sandia!

Ai dona fea! Se Deus mi pardon!
E pois havedes tan gran coraçon
Que vos eu loe en esta razon,
Vos quero já loar toda via;
E vedes qual será a loaçon:
Dona fea, velha e sandia!

Dona fea, nunca vos eu loei
En meu trobar, pero muito trobei;
Mais ora já en bom cantar farei
En que vos loarei toda via;
E direi-vos como vos loarei:
Dona fea, velha e sandia!”.

Prosa Medieval

A prosa medieval retratava com mais detalhes o ambiente histórico-social desta época, abordando temas religiosos, profanos, históricos e mitológicos. Os personagens que elencavam esse estilo eram heróis, nobres e donzelas.

Havia todo um registro documental e também o objetivo de moralizar as pessoas. Temas místicos e sobrenaturais, além de ideais cavaleirescos também eram marcas da prosa medieval.

Classificações da Prosa Medieval

  • Novelas de Cavalaria: também conhecidos por “romances de cavalaria”, aqui eram retratados temas mitológicos e heroicos dos cavaleiros medievais, mesclados também à religião. Eram divididas em capítulos, onde os heróis eram os personagens principais em busca de seus amores, as donzelas medievais.

A Demanda do Santo Graal foi a novela mais importante para a literatura portuguesa. Ela retratava as aventuras dos cavaleiros do Rei Artur em busca do cálice sagrado (Santo Graal). Este cálice conteria o sangue recolhido por José de Arimateia, quando Cristo estava crucificado. Esta busca (demanda) é repleta de simbolismo religioso, e o valoroso cavaleiro Galaaz consegue o cálice;

  • Hagiografias: eram textos voltados para a revelação da vida dos santos, feitos com narrativas bastante comuns;
  • Nobiliários: também conhecidos por “livros de linhagem”, aqui era retratada a nobreza, suas características genealógicas, toda as gerações das famílias dos nobres na época medieval. Riquezas, conquistas e grandes feitos por parte da nobreza também eram relatados;
  • Cronicões: eram crônicas (textos em prosa) que relatavam as características próprias da história medieval, seus aspectos contemporâneos, tudo em razão do tempo, narrados de forma cronológica.

Trovadorismo – Religiosidade

O Trovadorismo apresentava uma cultura cuja religiosidade era elemento marcante. A vida do homem medieval era totalmente norteada pelos valores religiosos e para a salvação da alma. O maior temor humano era a ideia do inferno que torna o ser medieval submisso à Igreja e seus representantes. São comuns procissões, romarias, construção de templos religiosos, missas etc. A arte reflete, então, esse sentimento religioso em que tudo gira em torno de Deus. Por isso, essa época é chamada de Teocêntrica.

Trovadorismo – Sociedade

As relações sociais estão baseadas também na submissão aos senhores feudais. Estes eram os detentores da posse da terra, habitavam castelos e exerciam o poder absoluto sobre seus servos ou vassalos. Havia bastante distanciamento entre as classes sociais, marcando bem a superioridade de uma sobre a outra.


Atualizado em: 20/08/2018 na categoria: Literatura