Expansão Marítima na Crise do Feudalismo

Expansão Marítima na Crise do Feudalismo

A fome, as epidemias e a super exploração dos servos pela nobreza feudal levaram ao desaparecimento de boa parte da mão de obra medieval e, como consequência, houve retraição do comércio. Para superar a estagnação da economia feudal, era necessário aumentar os mercados produtores de matérias-primas e consumidores de produtos manufaturados europeus. A saída para a crise do feudalismo foi a expansão marítima, que também fornecia aos governantes a chance de livrarem-se dos pobres, mendigos, prostitutas, ladrões, vagabundos e dissidentes religiosos, que a mentalidade dominante da época identificava como inúteis e indesejáveis.

O Comércio de Especiarias

Durante a Baixa Idade Média, os europeus importavam especiarias (ervas, pimenta e outros) do Oriente. Eram produtos agrícolas provenientes de regiões tropicais, de reduzido volume e alto valor no mercado, muito apreciados como condimentos na culinária europeia. Seu consumo dava prestígio a qualquer novo rico europeu. Mas sua distribuição era muito irregular e extremamente monopolizada. Os muçulmanos traziam esses produtos da Ásia, em longas caravanas pelos desertos, até os portos do Mediterrâneo. Ali chegando, revendiam as especiarias aos mercadores das cidades italianas, principalmente genoveses e venezianos, que as distribuíam com grande lucro na Europa. O comércio de especiarias e de outros artigos de luxo do Oriente enriquecia principalmente os mercadores das cidades italianas e do mundo muçulmano.

O pagamento era feito com metais preciosos, que se tornaram escassos na Europa, prejudicando o comércio, nesse continente. Para os recursos tecnológicos da época, as minas da Europa central estavam esgotadas. A solução era a busca de ouro e prata em outros continentes. Nesse período, já existiam alguns Estados com fortes governos centrais, que possuíam grupos mercantis poderosos, mas não participavam das rotas de comércio das especiarias. Esses comerciantes e os reis tinham um interesse comum: participar do comércio de especiarias, acabando com o monopólio árabe-italiano.

Para quebrar o monopólio dos árabes e italianos no comércio de especiarias, era necessário descobrir novas rotas marítimas que evitassem o Mediterrâneo, e terrestres, que escapassem do cerco muçulmano. A saída era encontrar um caminho marítimo para as Índias, através do qual os comerciantes e navegadores dos novos países chegassem à fonte das especiarias, comprassem diretamente dos produtores e eliminassem os intermediários.

Expansão Marítima – Como Começar?

A descoberta do caminho marítimo para as Índias era uma tarefa muito difícil e custosa. Era necessário organizar uma frota de navios totalmente equipada, o que exigia muito capital. Em seus primórdios, a expansão marítima era quase uma aventura, equivalente, hoje, à corrida espacial. Havia mais dúvidas que certezas. Concepções religiosas ainda medievais, mitos e lendas colocavam a navegação no Atlântico como algo temeroso. Nenhum burguês individualmente teria tanto capital para aplicar na organização de uma frota. E, mesmo que tivesse, não aplicaria toda sua fortuna, com risco de perdê-la, naquilo que para ele era pouco mais que uma aventura.

A expansão marítima foi, então, uma obra das nascentes monarquias nacionais. Só o Estado tinha condições de reunir, planejar e financiar essa empresa marítima. O rei planejou a obra, estimulado pela nobreza, pela Igreja e pela burguesia, esta última a grande beneficiária da expansão do comércio. Para a nobreza, o interesse nessa atividade mercantil seria outro. Com as grandes navegações, pensava-se em guerra contra os infiéis muçulmanos, os asiáticos ou os nativos das regiões porventura conquistadas. Guerra implica militares e, no início da Idade Moderna, os militares eram os nobres, há muito tempo ociosos, principalmente em Portugal. A nobreza já não recebia mais feudos e, isolada da atividade comercial, precisava de postos rendosos, tais como chefia militar ou o governo das regiões conquistadas, além de honrarias dentro do Estado. O clero estava interessado em derrotar os infiéis e conquistar as almas dos nativos de outros continentes para Deus. A Igreja Católica estava interessada em impor seu domínio nos outros continentes, o mesmo ocorrendo com as Igrejas oficiais dos países protestantes. O rei ouvia os conselhos dos burgueses, nobres e clérigos, mas a decisão final era sua. Definida a campanha, ele buscava o apoio dos grandes comerciantes, armadores e banqueiros.

A Descoberta do Caminho Marítimo para as Índias

Somente por iniciativa das monarquias nacionais, aliadas a suas respectivas burguesias, e com o apoio da nobreza e do clero, é que foi possível a descoberta do caminho marítimo para as Índias, bem como a ocupação de novos continentes. Até o século XV, as técnicas de navegação eram muito rudimentares, o que dificultava as viagens em alto-mar, tornando quase impossível ultrapassar os limites do Mediterrâneo ou da navegação costeira. Devido às investidas muçulmanas no sul e leste da Europa, no início do século XV, esse quadro alterou-se. Lentamente, as cidades marítimas mais ameaçadas pela expansão muçulmana desenvolveram instrumentos para a navegação em alto-mar: a caravela, a bússola, o astrolábio, os primeiros rudimentos da navegação astronômica, a cartografia, o canhão de bordo e outras armas de fogo. A invenção da imprensa tipográfica teve também grande importância no desenvolvimento das técnicas de navegação, pois difundiu as novas técnicas náuticas e os planos de viagens.

Além das condições político-econômicas e das novidades tecnológicas, outro grande impulso à expansão foi o surgimento de um novo homem, mais curioso, interessado pelas coisas do mundo, aventureiro e adequado a essa tarefa. Como filho do Renascimento, estava livre do medo, ambicionava lucros, desenvolvia a ciência e o desejo de aventuras, responsáveis pela superação dos obstáculos. Como filho da Reforma, era amedrontado pelo fim do mundo e queria salvar sua alma. Para isso, era preciso converter os pagãos, combater os infiéis e descobrir o paraíso terrestre. Esses motivos engajaram-no na aventura marítima. Colombo, por exemplo, sonhava com a riqueza e as honras, mas não se esquecia de Deus. Imaginava colocar a riqueza que conquistaria na luta contra os muçulmanos a serviço de Cristo.

Em certos casos, o Estado não deixava opção aos navegadores – era embarcar ou ser condenado à morte. Cometeram, em nome de Deus e pela febre de ouro, genocídios e todo tipo de patifarias, devido a sua superioridade em armamentos. Mas, apesar disso, alargaram o mundo conhecido, permitiram a ampliação do conhecimento científico, com a descoberta de novos acidentes geográficos, animais e plantas, e impuseram o domínio europeu em praticamente todo o mundo.

Atualizado em: 27/10/2017 na categoria: História Geral